Um parceiro recusa terapia conjugal por temer ser acusado de errar, não crer que ela resolva questões concretas, ter medo do constrangimento ao revelar segredos a um desconhecido, ou porque já optou, em silêncio por encerrar o relacionamento. (Artigo primeira vez publicado em Psicólogo online Emilson Silva)
Cheguei a essa conclusão ao notar, no dia a dia do consultório, a repetição do mesmo cenário: alguém chega certo de convencer o outro, aplica um argumento equivocado num instante inapropriado e sai com a recusa ainda mais resoluta que antes.
O problema quase sempre é a forma como se aborda a situação.
Por que a recusa?
Existem quatro motivos comuns que levam a uma recusa, cada um exigindo uma estratégia distinta:
- Medo de revelar-se culpado;
- Desconfiança em relação à eficácia da terapia;
- Constrangimento ao expor detalhes íntimos a alguém desconhecido ou;
- Escolha prévia para terminar o relacionamento.
As abordagens seguintes são eficientes nas três primeiras causas. Na quarta, elas não têm efeito, então é justo mencioná-lo desde o início.
Não sugira a terapia de casal durante um conflito
O erro mais frequentemente cometido é sugerir terapia durante um conflito, enquanto a outra pessoa já se encontra em modo de proteção.
Faça o convite posteriormente, em um instante calmo, longe das fortes emoções negativas.
Costa, Delatorre, Wagner e Mosmann (UFRGS, 2017), em estudo publicado na Psicologia: Ciência e Profissão, constataram que o sucesso na participação da terapia conjugada tem mais sucesso quando o convite é feito em um instante de calmaria, onde há menos resistência, pois não traz a carga emocional de uma discussão recente.
Pergunte-se antes do convite: você sugere terapia pra solucionar um problema, ou pra acabar com o último conflito?
Desconstrua o pensamento errado
Recusa geralmente está ligada a um pensamento consolidado sobre o que representa a terapia para casal, e não apenas à uma simples negação do convite.
Em alta entre os leitores:
Neumann, Falcke, Mosmann e Wagner (UNISINOS/UFRGS, 2019), num artigo da revista Estudos Interdisciplinares em Psicologia, descobriram que tanto homens quanto mulheres acreditam fortemente em certos mitos sobre casamento, como:
- Pensar que pedir apoio externo demonstra fraqueza do relacionamento ou que;
- “Um casal apaixonado não precisa de ninguém mais”.
Reconhecer qual desses mitos está por trás da recusa do cônjuge muda totalmente a forma como se argumenta.
- Se a ideia é “terapia se dá em casais em crise”: argumente que a intenção é evitar problemas, e não resolver crises.
- Se o mito é “vamos enfrentar sozinhos, o tempo ajuda”: pergunte, com serenidade, por quanto tempo esse “sozinho” não está dando certo.
- Se o mito for “o terapeuta escolhe entre os dois lados”: esclareça que o profissional é um promotor de diálogo, não um julgador.
Mostre os benefícios
Aqui chega o obstáculo mais frequente encontrado no dia a dia da assistência médica com homens, mesmo que ele também aconteça em outros grupos.
Silva e Melo (2021), na revisão publicada pela Ciência & Saúde Coletiva, trataram das dificuldades de chegar ao apoio por causa de modelos de masculinidade e machismo.
Maffezzolli, Rodrigues e Cardoso (Universidade do Vale do Itajaí, 2025), na revisão da Revista IGT na Rede, apontam que os homens geralmente recusam situações de “revelar emoções” ou “conversar sobre sentimentos”, porém têm mais sucesso com alternativas baseadas em métodos concretos.
Na prática, isso nos ensina como o convite inicial para participar de uma terapia de casal deve ser feito.
“Vamos trocar ideias sobre nossas emoções com outra pessoa” costuma parecer invasão de privacidade, enquanto “Vamos reservar um tempo semanal com alguém preparado para nos auxiliar a interromper as brigas” soa como solução.
Sugira uma única sessão
Neumann, Wagner e Remor (UFRGS, 2019), num trabalho publicado na revista Contextos Clínicos sobre o programa de educação conjugal “Viver a Dois”, mencionam critérios de participação ligados a modelos organizados com tempo definido.
Sugerir uma única sessão de terapia de casal diminui a sensação de pressão e é mais tolerado do que apresentar a “terapia” como algo contínuo e incerto.
| Evite | Diga |
|---|---|
| “Vamos iniciar um tratamento conjunto” | “Vamos tentar uma sessão e analisar o resultado” |
| “Você sempre evita se meter em conflitos” | “Gostaria de compreender o que há entre nós dois” |
| O convite durante ou imediatamente depois de conflito | Faça o convite em um instante tranquilo, sem tensão recente |
| Enfatizar o “preservar o casamento” | Destaque “reconhecer o modelo repetitivo das brigas” |
Faça o pedido por escrito
Para quem tem dificuldade em se expressar presencialmente, escrever é mais eficaz.
Uma mensagem escrita facilita o pedido e evita que o diálogo transforme-se em conflito antes mesmo de ouvir o convite.
Escreva com calma e revise no dia seguinte. Remova qualquer trecho que pareça alarmante, mesmo que a intenção não tenha sido essa.
Perguntas frequentes
- Como faço meu marido/esposa concordar em fazer terapia de casal se ele/ela não está disposto a ouvir?
Primeiro, descubra qual é o verdadeiro motivo do “não”: medo de ser culpado, falta de confiança, insegurança ou a certeza de querer terminar. A forma como se convida muda bastante conforme a situação. Convidar com a mesma frase repetidamente só vai confirmar a negação. - É conveniente persistir diariamente?
Não. Persistir só aumenta a resistência, não diminui. Opte por um instante tranquilo, proponha com precisão e ofereça tempo. Fazer a pergunta todas as semanas se parecerá como uma exigência, e exigências fecham o caminho. - Em que situação é inadequado sugerir as sessões?
Durante ou após um desentendimento. Nesse instante, a outra parte está protegida e qualquer sugestão parecerá uma acusação dissimulada. Aguarde alguns dias, selecione um momento verdadeiramente tranquilo, sem pendências abertas, antes de apresentar o convite. - Meu marido pensa que terapia é só para pessoas sem força. Que resposta dou?
Em vez de “vamos conversar sobre nossos sentimentos”, tente “vamos marcar um tempo semanal com alguém especializado para nos auxiliar a deixar de repetir o mesmo conflito”. Para muitos homens, a terapia vista como um método eficaz soa menos intimidante do que quando descrita como compartilhamento emocional. - Qual é a forma mais adequada: falar cara a cara ou enviar um recado solicitando apoio psicológico?
Depende da forma como vocês se expressam atualmente. Se cada diálogo direto transforma-se em conflito, a carta auxilia: você formula o pedido sem a tensão do contato visual. Escreva com calma, revise no dia seguinte, elimine qualquer trecho que pareça ser uma reclamação. - A terapia conjunta é eficaz mesmo que apenas um parceiro esteja disposto a participar?
A colaboração terapêutica é o elemento mais vinculado a resultados positivos, segundo estudo brasileiro de Costa e outros (UFRGS, 2017). Quanto mais o convite diminuir a percepção de obrigatoriedade, maior a probabilidade de participação efetiva na primeira reunião, mesmo que ela inicie com desinteresse. - E se, apesar de fazer todas as coisas certas, ele ainda não quiser aceitar?
Se a resistência persistir mesmo com esforço cuidadoso, isso já revela a postura real da outra parte, e não sinal de que se deve insistir mais ou mudar de abordagem. - Terapia individual, apenas eu, vai trazer algum resultado neste contexto?
Vai auxiliar você a compreender seu lugar no padrão de conflito e afastamento, e a se comportar mesmo sem o outro participar. Ela não substitui uma terapia conjugal completa, mas também não é desperdício enquanto o convite não for aceito. - Qual é o motivo pelo qual os homens se negam a buscar tratamento mental em comparação com as mulheres?
Padrões culturais de masculinidade vinculam buscar apoio à fraqueza, o que complica a busca por assistência psicológica, segundo Silva e Melo (Ciência & Saúde Coletiva, 2021). Isso não é regra para todos os homens, mas explica porque a forma de convidar muitas vezes precisa ser adaptada. - Quanto tempo vai demorar até que meu companheiro concorde em participar de um encontro?
Não há prazo certo. Alguns respondem no primeiro convite, outros demoram meses com tentativas planejadas. A velocidade depende da qualidade do convite (momento, forma de falar, nível do compromisso pedido), não o número de vezes que você pergunta.
Referências
- COSTA, C. B.; DELATORRE, M. Z.; WAGNER, A.; MOSMANN, C. P. Terapia de casal e estratégias de resolução de conflito: uma revisão sistemática. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 37, n. 1, p. 208-223, 2017. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/2820/282050111016.pdf. Acesso em: 22 set. 2026.
- MAFFEZZOLLI, F. G. M.; RODRIGUES, J.; CARDOSO, D. T. Gestalt-terapia, homens, masculinidades: uma revisão de literatura narrativa. Revista IGT na Rede, v. 22, n. 43, p. 1-29, 2025. Disponível em: https://www.igt.psc.br/ojs3/index.php/IGTnaRede/article/download/643/1257/4806. Acesso em: 22 set. 2026.
- NEUMANN, A. P.; FALCKE, D.; MOSMANN, C. P.; WAGNER, A. Adesão aos mitos da conjugalidade por homens e mulheres: associações com qualidade e conflito conjugal. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, v. 10, n. 3supl, p. 66-84, 2019. Disponível em: https://ojs.uel.br/revistas/uel/index.php/eip/article/download/36864/26679/188945. Acesso em: 22 set. 2026.
- NEUMANN, A. P.; WAGNER, A.; REMOR, E. Programa de educação conjugal “Viver a Dois”: caracterização dos casais e indicadores de adesão. Contextos Clínicos, v. 12, n. 1, 2019. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/201502/001095625.pdf?sequence=1. Acesso em: 22 set. 2026.
- SILVA, R. P.; MELO, E. A. Masculinidades e sofrimento mental: do cuidado singular ao enfrentamento do machismo? Ciência & Saúde Coletiva, v. 26, n. 10, p. 4613-4622, 2021. Disponível em: https://scielosp.org/pdf/csc/2021.v26n10/4613-4622/pt. Acesso em: 22 set. 2026.


