3 técnicas científicas para superar uma traição no casamento

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Superar uma traição no casamento exige regular o corpo antes de decidir, identificar em qual das três fases de recuperação o casal está, aplicar o modelo REACH para perdoar sem se obrigar a reconciliar, e avaliar reconstrução de confiança por comportamento verificável, não promessas. Recaídas fazem parte do processo e não indicam fracasso.

Casal de meia-idade sentado em lados opostos do sofá, ambos olhando para a janela.

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O processo de lidar com a infidelidade em um relacionamento requer: (Artigo primeira vez publicado em Psicólogo online Emilson Silva)

  • Regular o corpo antes de tomar uma decisão;
  • Saber em que etapa da superação você se encontra;
  • Utilizar o modelo REACH para perdoar sem precisar reconciliar, e;
  • Acompanhar as atitudes previamente para retomar a segurança.

Essa lista é resultado da análise de casais no ambiente clínico, combinada ao estágio das fases de superação do modelo Gordon, Baucom e Snyder (2005), além do modelo REACH de Everett Worthington, validado em estudos sobre aceitação e bem-estar psicológico.

Quais as consequências da traição na confiança?

Uma traição abala o sistema de vínculo, que nos ajuda desde pequenos a entender se quem confiamos está presente.

Warach e Josephs (2021), profissionais que trabalham com terapia de casal, vinculados à Adelphi University, analisaram diversos estudos feitos ao longo de muitos anos.

Eles explicaram que a traição gera sinais parecidos com os de uma experiência traumática emocional.

O que costumo notar nas consultas de psicoterapia é a pessoa lesionada relendo conversas passadas, buscando identificar a vez em que “deveria ter notado algo de errado”.

Essa ação mostra o mecanismo de alerta tentando se ajustar após ter sido enganado por alguém que deveria garantir sua segurança.

Os 3 estágios após uma infidelidade

Gordon, Baucom e Snyder (2005), pertencentes às universidades da Tennessee e Texas A&M, apresentaram um modelo composto por três fases de recuperação:

  • Fase 1: nos primeiros dias ou semanas. Caracterizam-se por choque, irritação, ressentimento e dificuldade para dormir. Nenhuma escolha relevante deve ser feita nesse período;
    Fase 2: o casal busca compreender os motivos por trás da infidelidade. Qual foi a razão para isso, qual consequência ela apresenta sobre o convívio em comum, quais sentimentos cada um tinha antes disso;
    Fase 3: permanecer ou terminar passa a ser algo que se decide com clareza, usando informações concretas sobre o envolvimento do outro.

A duração da etapa está relacionada a:

  • Elementos como histórico de apegos anteriores;
  • Quando um ato de deslealdade foi revelado ou admitido, e;
  • Quando aquele que traía mostra arrependimento no decorrer dos meses, e não só nas primeiras semanas.

Ja identificou em que fase você se encontra atualmente, ou ainda está buscando chegar à uma conclusão definitiva?

Técnica 1: controle do corpo para tomar decisões

Escolhas feitas em momentos de excitação corporal são muito mais intensas do que depois.

No dia a dia, isso quer dizer que é preciso usar métodos de controle antes de toda e qualquer discussão importante:

  • Respire devagar, contando até seis ao soltar o ar;
  • Andar por cerca de vinte minutos antes de se envolver com um problema desafiador;
  • Deixar a discussão mais intensa para quando os dois tiveram descansados.

Um caso simples mostra isso: a pessoa que foi traição vê o companheiro sorrindo para o celular no sofá e todo o corpo fica paralisado, mesmo entendendo racionalmente que pode ser apenas um vídeo qualquer.

Pausar por cinco segundos antes de responder transforma positivamente a próxima troca de ideias.

Método 2: a abordagem REACH

Everett Worthington, ex-professor da Universidade da Virgínia Commonwalth, criou o modelo chamado REACH.

Perdoar nesse contexto não significa “esquecer” ou estabelecer a confiação de imediato. Significa interromper que o sentimento negativo controle as ações do corpo.

Rasmussen e colegas (2019) compilaram diversos pesquisas sobre perdão e bem-estar físico. O resultado principal foi: pessoas que perdoam sentem menos sinais de tristeza e pensamentos repetitivos, mesmo se decidirem não continuar na relação.

EtapaO que significa na prática
Recall (relembrar)Descrever o que aconteceu sem minimizar nem dramatizar além do fato
Empathize (empatizar)Entender o contexto do outro, sem isso justificar o ato
Altruistic gift (oferta altruísta)Lembrar de um momento em que você também precisou de perdão
Commit (comprometer-se)Registrar por escrito a decisão de perdoar, mesmo sem sentir isso o tempo todo
Hold on (manter)Voltar ao compromisso nos dias em que a raiva reaparece, e ela vai reaparecer

A escolha de perdoar sem buscar acerto pode ser válida, enquanto acertar sem conceder perdão tende a trazer mais voltas da mesma situação.

Técnica 3: restaure a credibilidade por meio de ações observáveis

Mitchell e colaboradores (2022), no artigo publicado na revista Journal of Marital and Family Therapy, investigaram casais que permaneceram juntos após uma traição.

O aspecto que mais contribuiu para a recuperação de quem se recuperou em vez de ficar estagnado foi a manutenção constante do comportamento nas semanas seguintes.

Quantos vez você já escutou alguém dizer “acredita em mim” e não viu nenhuma ação que confirmasse isso?

“Devo perdoar?”

Pessoas muitas vezes se desviam do caminho da perdão por acharem que isso demonstra fraqueza, ou que reconhecer o ocorrido como algo “não tão prejudicial”.

Não é exatamente isso.

Fife e colegas (2023), num pesquisa qualitativa publicada no Journal of Social and Personal Relationships, explicam que o perdão é algo que o parceiro traído usa como forma de se recuperar, não um presente dado ao outro.

Você tem direito de desistir do relacionamento e encerrar o casamento na própria semana. Um fato não implica necessariamente outro.

Erro frequentemente cometido consiste em contrário: buscar reconciliação antes de digerir toda fúria originária.

Essa situação geralmente volta como conflitos exagerados semanas após, envolvendo temas completamente distintos da traição inicial.

Questões que apenas você pode resolver

Antes de tomar alguma decisão, é bom refletir sobre essas questões, sem apressar a resposta completa no momento atual:

  • Você se afasta ao ver que o seu companheiro está tentando chegar perto após a infidelidade?
  • Em um dia normal, quanto tempo costuma levar para deixar de ficar repetindo a experiência da descoberta?
  • Está buscando perdoar com a intenção de ficar mais feliz, ou deseja mostrar ao outro que é alguém íntegro?
  • Se os atos do seu companheiro nos últimos trinta dias fossem a única evidência disponível, ela seria capaz de renovar a confiança que você está buscando recuperar?

Como a terapia vai transformar sua vida

Tratamento específico para casos de traição fornecem um apoio necessário para superar esse momento sem prejudicar o que ainda existe na relação.

Recaídas são normais e frequentemente ocorrem quando um casal passa meses em progresso e, de repente, enfrenta uma semana de recuo, muitas vezes desencadeada por um evento, um local ou uma questão não resolvida.

Se identificar com alguma parte da narrativa aqui apresentada, agendar um encontro pode representar a próxima ação prática que tomar.

Perguntas frequentes

  • Por qual motivo não consigo deixar de pensar na traição, mesmo sabendo que repetir isso só piora?
    Isso acontece porque o cérebro vê a traição como uma ameaça sem solução e continua revisando as informações até encontrar um sentido que explique tudo.
  • É normal eu ainda ter vontade de ver o celular dele(a) constantemente?
    Claro, especialmente nos primeiros meses. Isso acontece porque a confiança natural foi abalada e o cérebro procura evidências antes de voltar ao modo relaxado. Ao longo do tempo, com atitudes estáveis da outra pessoa, essa sensação costuma se acalmar, mas quase nunca desaparece de um dia para o outro.
  • Como saber quando essa dor vai passar realmente?
    É bem variável, e não espere por uma data certa. Certos casais conseguem alívio efetivo em três ou quatro meses, mas outros precisam de mais de um ano. O que importa é a constância do comportamento da pessoa que foi infiel, e não apenas o desejo de “passar para frente” rapidamente.
  • É possível perdoar e ainda assim encerrar um casamento?
    Sim, é uma decisão válida. Perdoar significa parar de deixar a mágoa controlar suas emoções, não necessariamente continuar na relação. Muitos optam por perdoar para ter liberdade emocional, evitando levar raiva para um novo relacionamento.
  • Como identificar se ele(a) de fato evoluiu ou apenas teme que eu vá embora?
    Faça uma análise sobre se a atitude persiste mesmo sem exigência. A repetição de promessas orais sem ações práticas costuma sinalizar medo da ruptura, não uma transformação genuína.
  • Por que às vezes eu fico zangado sem razão, meses após já ter “passado”?
    Isso acontece porque a cura não é um caminho direto. Certas datas, locais ou odores específicos reacendem lembras da descoberta mesmo depois de muito tempo. Isso faz parte do processo natural, e não quer dizer que você tenha voltado ao início.
  • A terapia é eficaz mesmo após uma infidelidade, ou apenas adia o fim?
    Ela funciona bem quando ambos conseguem lidar com a sensação de serem questionados sem se isolar. A terapia não reduz rapidamente o sofrimento nem promete que os dois continuarão juntos, mas oferece um espaço para tomar decisões com mais clareza, em vez de repetir conflitos no mesmo lugar.
  • Eu sou fraco(a) por querer ficar casado(a) após isso?
    Não. A vontade de reconstruir não é sinal de fraqueza ou ausência de autoestima, mas sim uma escolha igual a qualquer outra. O problema surge quando essa determinação desconsidera sinais evidentes de que o outro não está pronto para se engajar na recuperação junto com você.
  • Como posso recuperar a confiança sem ter que ficar observando a outra pessoa constantemente?
    A confiança se constrói com atitudes reais ao longo do dia a dia, e não apenas com promessas sozinhas. Ficar sempre de olho indica que ainda falta evidência sólida, e não necessariamente que haja motivo para desconfiar.
  • É natural eu não ter mais desejo após descobrir uma traição?
    Sim, é comum. O corpo liga o parceiro a algo que representa perigo, e isso impacta na vontade de querer um relacionamento sexual, mesmo que a pessoa tenha intenção de se aproximar emocionalmente. Esse comportamento tende a diminuir quando há uma sensação novamente segura dentro do casal.
  • Por que ele(a) fica atrás do muro sempre que eu indago algo?
    A repetição de postura defensiva muitas vezes mostra um problema maior: não saber lidar com a sensação desconfortável de ser interrogado, o que atrapalha bastante a volta da confiança. Casais que têm mais chances de se reencontrar costumam ter o parceiro traiçoeiro respondendo à mesma pergunta várias vezes sem fechar as portas.
  • É interessante compartilhar com parentes e colegas o que aconteceu?
    Isso vai depender da necessidade de apoio que você tem e da capacidade desses indivíduos em não atrapalhar sua escolha. Não há a obrigação de revelar ou guardar segredos. A melhor maneira é baseada no que contribui para o seu entendimento, e não nas opiniões dos outros.
  • Como saber se estou perdoando de verdade ou apenas escondendo para não enfrentar o problema?
    O perdão genuíno diminui a repetição do pensamento com o passar dos dias, mesmo que sentimentos de raiva voltem vezes em que menos esperamos. A ilusão de ter perdoado tende a ocultar totalmente o assunto, sem falar dele jamais, e pode ressurgir depois como conflitos descontrolados sobre questões que não têm relação com a traição.
  • Tem um tempo definido para eu escolher se permaneço ou termino?
    Não há uma data fixa, mas optar por decidir logo após a irritação ou a surpresa geralmente leva à culpa depois. A melhor opção é aguardar que o período de desconforto passe antes de definir algo que deseja seguir.
  • Qual é a razão das datas e locais específicos me levarem a reviver tudo novamente?
    Isso acontece porque lembrações importantes ficam ligadas a estímulos sensoriais, como um local, uma canção ou um dia especial. Essa é uma forma normal de armazenamento emocional, não significa que você esteja voltando atrás no processo de relembrar.

Referências

  • FIFE, Stephen T.; GOSSNER, Jonathan D.; THEOBALD, Amanda; ALLEN, Emily; RIVERO, Alicia; KOEHL, Hunter. Couple healing from infidelity: a grounded theory study. Journal of Social and Personal Relationships, 2023. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/02654075231177874. Acesso em: 14 set. 2026.
  • GORDON, Kristina C.; BAUCOM, Donald H.; SNYDER, Douglas K. Treating couples recovering from infidelity: an integrative approach. Journal of Clinical Psychology, v. 61, n. 11, p. 1393-1405, 2005. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16161129/. Acesso em: 14 set. 2026.
  • MITCHELL, Elizabeth A. et al. Affair recovery: exploring similarities and differences of injured and involved partners. Journal of Marital and Family Therapy, 2022. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/jmft.12538. Acesso em: 14 set. 2026.
  • RASMUSSEN, Kyler R.; STACKHOUSE, Malissa; BOON, Susan D.; COMSTOCK, Kaleigh; ROSS, Robert. Meta-analytic connections between forgiveness and health: the moderating effects of forgiveness-related distinctions. Psychology & Health, v. 34, n. 5, p. 515-534, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1080/08870446.2018.1545906. Acesso em: 14 set. 2026.
  • WARACH, Benjamin; JOSEPHS, Lawrence. The aftershocks of infidelity: a review of infidelity-based attachment trauma. Sexual and Relationship Therapy, v. 36, n. 1, p. 68-90, 2021. Disponível em: https://scholarlyworks.adelphi.edu/esploro/outputs/journalArticle/The-aftershocks-of-infidelity-a-review/991004395994606266. Acesso em: 14 set. 2026.
  • WORTHINGTON JR., Everett L. REACH forgiveness. Virginia Commonwealth University, 2020. Disponível em: https://www.evworthington-forgiveness.com/reach-forgiveness. Acesso em: 14 set. 2026.